🌿 Guia informativo

A planta que a medicina aprendeu a dosar.

CBD, THC, indicações com evidência científica e o que diz a legislação brasileira em 2026 — explicado em linguagem clara, sem promessa milagrosa e sem substituir consulta médica.

🧬 +100 canabinoides identificados ⚖️ Uso sob prescrição no Brasil 🇧🇷 Regulado pela Anvisa
✅ Baseado em estudos
🩺 Sempre com prescrição
Frasco de óleo com folha de cânhamo
🧪 Comparação

Dois compostos, dois efeitos

A cannabis tem mais de cem canabinoides, mas dois concentram quase toda a conversa médica. Compare como cada um age.

Conta-gotas de óleo

Estrutura simplificada — grupo hidroxila livre

Não psicoativo

Canabidiol (CBD)

Não produz o "barato" associado ao uso recreativo. É o composto mais liberado em produtos de baixa concentração de THC, com regras de acesso menos restritivas no Brasil.

  • 🧠 Estudado em epilepsias refratárias, como Dravet e Lennox-Gastaut
  • 💧 Usado como adjuvante em quadros de dor crônica e inflamação
  • 🌙 Investigado para ansiedade, com evidência ainda em construção
  • 📋 Predomina em produtos liberados por Notificação de Receita tipo B

Mesmo sem efeito psicoativo relevante, o uso ainda exige prescrição médica e acompanhamento.

Estrutura simplificada — anel adicional fechado

Psicoativo

Tetrahidrocanabinol (THC)

Responsável pelo efeito psicoativo da planta. Em dose terapêutica e controlada, tem uso médico reconhecido — mas exige receituário mais rígido e acompanhamento próximo.

  • 💊 Indicado em náuseas e vômitos associados à quimioterapia
  • 💪 Usado em espasticidade da esclerose múltipla
  • 🍽️ Auxilia no estímulo de apetite, como em tratamentos oncológicos
  • 📋 Acima de 0,2% no produto final, exige Notificação de Receita tipo A

O uso recreativo da mesma molécula continua sem regulamentação no Brasil — contextos e controles são diferentes.

📊 Evidência clínica

Para que é estudada

O nível de evidência varia por condição. Nenhuma indicação aqui substitui avaliação médica individual.

🧠

Epilepsias refratárias

Estudada em síndromes como Dravet e Lennox-Gastaut, quando outros anticonvulsivantes não controlam as crises.

Evidência consolidada
💊

Náusea da quimioterapia

Compostos à base de THC usados como antiemético quando os tratamentos convencionais não são suficientes.

Evidência consolidada
🔥

Dor crônica

Usada como adjuvante em dores neuropáticas e musculoesqueléticas, com evidência mais forte para dor oncológica.

Evidência moderada
💪

Esclerose múltipla

Extratos combinando CBD e THC são estudados para reduzir a rigidez muscular associada à doença.

Evidência moderada
🍽️

Perda de apetite

Avaliada em contextos oncológicos e em pessoas vivendo com HIV, como parte de um plano terapêutico mais amplo.

Evidência moderada
🌙

Ansiedade e insônia

Área de pesquisa ativa, com resultados promissores mas ainda menos consolidados que as demais indicações.

Evidência emergente
🩹

Fibromialgia

Um relato de caso descreveu melhora da dor e da função com redução do uso de opioide; faltam ainda estudos controlados.

Evidência limitada
♾️

Transtorno do Espectro Autista

Um ensaio randomizado com 60 crianças observou melhora em agitação, interação social e ansiedade — sem diferença nos escores globais.

Evidência emergente
🔬 Sistema endocanabinoide

Como funciona no corpo

O corpo humano já tem um sistema próprio que os canabinoides da planta conseguem "encaixar".

Folha de cannabis em detalhe
🧠

CB1

Concentrados no sistema nervoso central. Ligados à dor, humor, apetite e memória — é onde o THC age diretamente.

🛡️

CB2

Presentes principalmente no sistema imunológico. Associados à modulação da inflamação.

🌡️

TRPV1

Ligado à percepção de dor e temperatura. O CBD o ativa até ele se dessensibilizar, contribuindo para o efeito analgésico.

😊

5-HT1A

Receptor de serotonina. O CBD age como agonista parcial aqui, ligado ao seu efeito ansiolítico.

Esse conjunto é chamado de sistema endocanabinoide, e o corpo já produz suas próprias moléculas semelhantes aos canabinoides da planta, como a anandamida, para regular sono, humor e resposta a estímulos dolorosos.

O THC se liga diretamente aos receptores CB1, o que causa o efeito psicoativo. O CBD interage de forma diferente: além de CB1 e CB2, modula receptores como o GPR55 e o PPARγ — ligados a inflamação e proteção neuronal —, sem produzir o mesmo efeito psicoativo.

O CBD também inibe a enzima FAAH, responsável por degradar a anandamida, aumentando a disponibilidade dessa molécula que o próprio corpo já produz.

É essa diferença de mecanismo que orienta como cada composto é regulado e prescrito no Brasil.

⚖️ Brasil, 2026

O que diz a lei no Brasil

O marco regulatório mudou recentemente. Veja como chegamos até a regra atual.

Frascos numa prateleira de farmácia
2019

RDC 327/2019

Anvisa cria uma categoria própria para produtos de cannabis: autorização sanitária para uso medicinal, mas não registro como "medicamento" convencional.

Nov/2024

Decisão do STJ

O Superior Tribunal de Justiça reconhece a legalidade do cultivo de cannabis para fins exclusivamente medicinais e farmacêuticos.

Fev/2026

Novo pacote regulatório

A Anvisa publica um conjunto de resoluções (RDCs 1.011 a 1.015/2026) reorganizando cultivo, pesquisa, fabricação, associações de pacientes e dispensação.

Mai/2026

RDC 1.015/2026 entra em vigor

Substitui a RDC 327/2019 e passa a valer para prescrição, dispensação e controle sanitário em farmácias e drogarias.

📌 Regra em vigor

Até 0,2% de THC no produto final: prescrição por Notificação de Receita tipo B, de acesso menos restrito.

Acima de 0,2% de THC: uso restrito a pacientes com quadros graves, irreversíveis ou refratários, com Notificação de Receita tipo A.

A dispensação é feita exclusivamente por farmacêutico, com registro obrigatório no SNGPC.

🗺️ Passo a passo

Como acessar um tratamento

O caminho segue uma ordem definida — nenhuma etapa pode ser pulada.

Médica escrevendo uma receita
1

Consulta médica

Um médico avalia histórico, diagnóstico e se há indicação para o tratamento com cannabis.

2

Prescrição formal

Emissão da Notificação de Receita — tipo A ou B, conforme o teor de THC do produto indicado.

3

Retirada regulamentada

Compra em farmácia regularizada, com rastreamento obrigatório no SNGPC.

4

Acompanhamento

Retornos periódicos para ajustar a resposta ao tratamento junto ao médico assistente.

Associações de pacientes também são reconhecidas pela regulação atual como via de apoio ao acesso — sem, no entanto, autorização para comercialização.
💬 Perguntas frequentes

Dúvidas comuns

Cannabis medicinal deixa a pessoa "chapada"?

Depende do produto. Formulações predominantes em CBD não causam esse efeito. Produtos com THC, em dose terapêutica controlada, podem gerar efeitos psicoativos leves — acompanhados de perto pelo médico.

Preciso de receita para comprar?

Sim, sempre. Produtos de cannabis são vendidos exclusivamente sob prescrição, com retenção da receita pela farmácia no ato da venda.

É a mesma coisa que o uso recreativo?

Não. São produtos padronizados, com controle de qualidade, rastreabilidade e dose regulados pela Anvisa. O uso recreativo continua sem regulamentação no Brasil.

Qualquer médico pode prescrever?

A prescrição depende do produto e do quadro clínico — é o médico assistente quem avalia a indicação e emite a Notificação de Receita adequada.

📚 Fontes

Referências científicas

Estudos e revisões usados como base para este guia. A lista não é exaustiva.

Ver as 11 referências
  • ARAN, A. et al. Cannabidiol-Rich Cannabis in Children with Autism Spectrum Disorder and Severe Behavioral Problems. J Autism Dev Disord, 2019.
  • BAR-LEV SCHLEIDER, L. et al. Real life experience of medical cannabis treatment in autism: analysis of safety and efficacy. Sci Rep, 2019.
  • BARCHEL, D. et al. Oral Cannabidiol Use in Children With Autism Spectrum Disorder. Frontiers in Pharmacology, 2019.
  • FLEURY-TEIXEIRA, P. et al. Effects of CBD-Enriched Cannabis sativa Extract on Autism Spectrum Disorder Symptoms. Front Neurol, 2019.
  • PEREIRA, D. A. et al. Efficacy and Safety of Cannabinoids for Autism Spectrum Disorder: An Updated Systematic Review. Cureus, 2025.
  • VUČKOVIĆ, S. et al. Cannabinoids and Pain: New Insights From Old Molecules. Front Pharmacol, 2018.
  • MLOST, J. et al. Cannabidiol for Pain Treatment: Focus on Pharmacology and Mechanism of Action. Int J Mol Sci, 2020.
  • MÜCKE, M. et al. Cannabis-based medicines for chronic neuropathic pain in adults. Cochrane Database Syst Rev, 2018.
  • WALITT, B. et al. Cannabinoids for fibromyalgia. Cochrane Database Syst Rev, 2016.
  • NOORI, A. et al. Opioid-sparing effects of medical cannabis or cannabinoids for chronic pain. BMJ Open, 2021.
  • ANVISA. Resolução da Diretoria Colegiada RDC nº 1.015, de 02/02/2026.